Konokol – Ciclos de 2

Um dos mais interessantes olhares sobre o ritmo musical é a arte da percussão vocal do “konokol”, desenvolvido no sul da Índia para a performance da música carnática (música religiosa). O “konokol” é o componente vocal do “solkattu”, que se refere a algumas combinações de sílabas faladas enquanto se conta a “tala” ou o tempo.

A idéia é genial de tão simples. Basicamente, os indianos deram nomes cantáveis a cada conjunto de ataques rítmicos. A prática vocal dessas sílabas é bem divertida e acaba desenvolvendo nossa consciência rítmica de forma impressionante. Além disso, como você só precisa da sua voz (pode ser sua voz mental!) e suas mãos para bater o tempo, você pode praticar a qualquer hora e qualquer lugar. No ínico, porém, se você ainda não tem prática com exercícios rítmicos, eu recomendo bastante o uso de um metrônomo para desenvolver a noção de tempo também.

Você pode começar essa prática através do estudo dos ciclos rítmicos de 2 a 5. Em geral qualquer outro número pode ser alcançado somando-se estes primeiros ciclos, por isso é fundamental se acostumar com eles antes de queimar etapas (calma aí fãs do 7!).

Vamos começar com o ciclo de 2:

Ligue o metrônomo num tempo bem lento, 50 bpm por exemplo. Mantenha uma de suas mãos com a face virada para cima (vamos chamar essa mão de “mão 1”) e, com a outra mão (a “mão 2”), bata palma no primeiro tempo. Não importa se é a esquerda ou a direita, teste e veja qual lado é mais confortável para você. No segundo tempo, apenas toque com a ponta do dedo mínimo (mão 2) na palma da mão 1. Repita o processo por aproximadamente 1 minuto para se acostumar com o movimento e o tempo do metrônomo.

Agora vamos ao que interessa. Para entender este processo, é necessário ter um conhecimento básico de teoria musical, mais precisamente sobre as definições e prática dos símbolos rítmicos: semínima, colcheia, semi-colcheia, fusa, tercina, quintina, sextina e septina.

As sílabas rítmicas para o ciclo de 2 são:

TA – KI

O desenvolvimento do ciclo ocorre da seguinte maneira: enquanto você bate o tempo nas mãos, fale em voz alta as sílabas rítmicas TA – KI, nos seguintes ritmos:

  1. TA                                                            KI                                                               (Semínimas)
  2. TA-ki                                                      TA-ki                                                        (Colcheias)
  3. TA-ki-ta                                                KI-ta-ki                                                   (Tercinas)
  4. TA-ki-ta-ki                                          TA-ki-ta-ki                                           (Semi-colcheias)
  5. TA-ki-ta-ki-ta                                    KI-ta-ki-ta-ki                                      (Quintinas)
  6. TA-ki-ta-ki-ta-ki                              TA-ki-ta-ki-ta-ki                               (Sextinas)
  7. TA-ki-ta-ki-ta-ki-ta                        KI-ta-ki-ta-ki-ta-ki                          (Septinas)
  8. TA-ki-ta-ki-ta-ki-ta-ki                  TA-ki-ta-ki-ta-ki-ta-ki                   (Fusas)

Ou assim: Konokol – Full Score

Pratique as sílabas bem devagar no inicio, aos poucos você se acostuma com os ritmos e com a pronúncia das sílabas sem enrolar a língua.

No próximo post vamos trabalhar com os ciclos de 3 e algumas novas formas de aplicar esse estudo infinito! Enquanto isso saca só essa playlist que eu achei no YouTube só com videos relacionados ao konokol:

 

Fique a vontade para tirar qualquer dúvida ou deixar um comentário. Até a próxima!

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Ritmo

Dando continuidade aos estudos dos fundamentos da música, vamos analisar algumas estratégias para entender, identificar e criar ritmos mais naturalmente. Assim como os estudos de intervalos, que são a base para o estudo das alturas sonoras, o ritmo aceita conceitos muito amplos, que são estudados de diversas formas em diferentes lugares do mundo.

Rítmo vem do grego Rhythmos e designa aquilo que flui, que se move, movimento regulado.

Para se ter uma idéia da complexidade que o ritmo pode alcançar, é interessante levar em consideração que o conceito extrapola os limites do som, e mesmo do nosso planeta. Cada átomo possui elétrons que se movem em determinada frequência. E o conceito de frequência está inevitavelmente ligado a relação de um evento que acontece no tempo.

frequência é uma grandeza física que indica o número de ocorrências de um evento (ciclos, voltas, oscilações etc) em um determinado intervalo de tempo.

O ser humano interpreta a frequência de diversas maneiras, principalmente como luz e som. O som só se propaga através do ar, por isso o barulho das naves espaciais em filmes de ficção científica são uma grande ilusão, mas que se for levada a sério pode causar muito tédio aos cinéfilos.

Diante deste fato é interessante notar que alguns compositores associam o silêncio de suas obras à morte. É comum também encontrar essa associação em trilhas de filmes. Quando  o personagem falece, o som é completamente cortado, trazendo grande intensidade ao drama.

Assim como em qualquer aspecto da música, a melhor forma de se entender o ritmo é ouvindo como ele se manifesta em qualquer som ao seu alcance. Pegue a sua playlist favorita (eu ia falar o seu CD favorito, mas me senti terrivelmente velho) e identifique os ritmos presentes em cada música, e note a força que o ritmo tem para definir um estilo. Cante junto e memorize alguns dos ritmos que mais lhe agradam, sejam eles parte de uma levada de violão, bateria ou mesmo de uma melodia. Lembre-se que todos os instrumentos tocam num determinado ritmo, não apenas os percussivos.

Quando nós temos uma memória sonora dos eventos musicais, nós entendemos a música de fato, e a teoria vai servir apenas para dar nome a conceitos que você já entende na sua mente. Se você experimentar o processo inverso (o que é muito comum na educação musical tradicional), estudando os conceitos da teoria e símbolos da escrita musical antes de experimentar os sons, vai ver que a experiência será muito menos prazerosa e, consequentemente, menos efetiva.

Por isso não se preocupe tanto com a teoria das coisas, apenas experimente ficar mais atento ao que você escuta. Experimente escutar uma música sem abrir o Facebook e, melhor ainda, com os olhos fechados, foco total. Não há livro teórico do mundo que vá fazer você aprender mais do que esta experiência.

Não estou militando contra a teoria aqui. A teoria musical nada mais é do que um conjunto de conclusões que um bocado de gente teve ao analisar a música com atenção e seriedade. São referências que nos ajudam muito, mas que não substituem a experiência musical em si. Pode ser que, através da sua experiência empírica, você acabe discordando de algum conceito teórico bem aceito (o que aliás é comum na realidade acadêmica brasileira) e contribuindo para a comunidade científico-musical com novas discussões.

Nos posts seguintes irei comentar sobre alguns métodos de estudo, idéias de aplicação na apreciação e performance e claro, sugestões de estudo. Já estou preparando uma introdução ao Konokol, um método de estudo rítmico desenvolvido na Índia e aplicado por diversos músicos ocidentais. Estou planejando também algumas análises sobre os conceitos de rítmica desenvolvidos por Victor Wooten, Murray Schafer, Eduardo Gramani e Hal Galper, entre outros. O ritmo é um assunto imenso!

Até a próxima!