Transcrição e Ouvido

A transcrição é o processo em que uma música é passada de uma fonte sonora para uma fonte simbólica visual. É prática comum de um músico profissional escutar uma música que ele queira tocar e escrevê-la em uma partitura.

No Brasil, e talvez no mundo inteiro, a educação musical é muito focada nos símbolos das partituras e suas definições teóricas, deixando o principal de lado: a fonte sonora. Não é a toa que é tão comum pessoas desistirem rapidamente dos cursos de música, sejam eles particulares, em escolas de músicas ou em universidades.

Eu mesmo sou um bom exemplo das causas desse tipo de ensino. Por muito tempo eu achava que estudar música significava estudar escalas, arpejos e acordes, leitura de partituras e conhecimento de todas as definições dos livros de harmonia e improvisação. Sempre que eu pensava em estudar algo, como por exemplo composição, eu procurava os melhores livros sobre o assunto e devorava-os deixando muita prática necessária para trás. Isso não significa que eu não tenha aprendido nada com os livros, mas por muito tempo deixei de lado o mais importante: estudar música!

Moral da história: toda vez que eu tocava em público, soava como uma máquina, sem emoção. Por mais que as notas fizessem sentido harmônico e rítmico, não havia uma história pra contar. Eu não causava o menor interesse nos meus ouvintes e nem para mim mesmo.

É por isso que sempre faço muita questão de falar sobre o ouvido musical. Escutar música sempre será o melhor estudo que um músico pode ter. Mas eu estou falando de escuta ATIVA, e não passiva!

A escuta ATIVA é atenciosa em que se presta atenção nos diferentes sons emitidos da fonte sonora. Atenção no ritmo, na melodia, nos acordes, nos timbres, na emoção de cada intérprete, na sua própria reação emocional. Abra seus ouvidos e nenhum som deixará de ser interessante!

A escuta passiva é aquela que todos nós fazemos durante o dia todo. Acordamos, escutamos o som do alarme, do recado do whatsapp, da água fervendo, dos carros passando, da chuva, da música da academia, do radio, e mesmo dos bares com bandas ao vivo! Você pode escutar um disco maravilhoso do Paco de Lucia, mas se durante isso ficar se distraindo no Facebook, você está perdendo uma ótima oportunidade de passar um momento muito engrandecedor com um dos maiores músicos do mundo. Eu mesmo estou escutando agora o disco “Vento Bravo”, do Nosso Trio, que é maravilhoso, mas não estou prestando nenhuma atenção, afinal de contas estou escrevendo aqui…

Então vamos concordar que a escuta ATIVA é muito mais proveitosa, certo?

Bom, mas como fazer isso? Pessoas que não entendem nada de música podem apenas escutar com atenção e chegar a conclusões como “a música é”:

  • rápida/lenta;
  • animada/triste;
  • um rock/samba;
  • ao vivo/em estúdio;
  • etc.

Conclusões bastante amplas e com definições bem subjetivas.

Nós músicos temos a vantagem de ter estudado algumas definições mais técnicas, e precisamos analisar tudo o que ouvimos para que essas definições façam mais sentido em nossa mente. Isso é que é estudar música.

Os primeiros passos para praticar a escuta ATIVA é pegar os primeiros conceitos mais amplos, como forma e estilo e defini-los a cada escuta. Eu explico este processo mais detalhadamente em alguns dos meus artigos em inglês sobre jazz, que em breve traduzirei para o português e adaptarei a música brasileira e publicarei aqui.

A partir daí a nossa percepção fica rapidamente mais aguçada. Logo sentimos necessidade de comparar diferentes formas e estilos, e vamos gradativamente prestando mais atenção aos detalhes. E é nos detalhes que se escondem as maravilhas da música.

Conforme vamos avançando no estudo da teoria, não nos resta muita opção no processo da escuta ATIVA. A transcrição vira uma ferramenta indispensável àqueles que querem se aperfeiçoar no entendimento dos sons e querem sacar o que é que há de tão especial nos seus albums favoritos.

O lado bom da transcrição é que não há idade para começar. Eu digo isso num sentido mais amplo de transcrição (é errado, eu sei, mas eu uso assim), incluindo aqui o processo de somente “tirar músicas de ouvido”, sem necessariamente escrevê-las nas partituras. Você só precisa do seu fone de ouvido e seu instrumento. Ouça a música e copie o som daquilo que você quiser “tirar” e repita até ficar bem parecido.

O lado ruim é que esse processo é lento e muitas vezes cansativo. Por isso, divida bem o seu tempo para não perder motivação. Eu normalmente escuto a música e fico apenas cantando as notas o mais exatamente possível. Isso favorece a memorização e facilita tudo mais tarde. Depois disso pego minha guitarra e vou tocar outra coisa, tomo um chimarrão, etc. Enfim, dou um descanso de aproximadamente 10 a 15 minutos para minha cabeça.

Depois disso, estipulo pequenos objetivos. Depende da dificuldade da música, mas em geral eu divido a música em sessões de 8 compassos. A cada 8 compassos completos, um intervalo para outras coisas. 10 minutos depois, mais 8 compassos, e assim por diante. Em algum momento a música inteira está “tirada” e/ou escrita e você nem percebe que foi tanto trabalho.

Se você não tem experiência com transcrição e percepção musical, pegue leve. Não vá querer tirar um solo inteiro do Chris Potter sem nunca ter tocado um jazz na vida. Tem tanta coisa simples por aí que são lições espetaculares de musicalidade. Basta procurar!

Se você já tem alguma experiência e quer tirar aquele solo longo e difícil do Joe Pass, eu recomendo tentar ser o mais produtivo possível, para não perder a motivação e acabar não tirando nada. Por exemplo, quando você chegar numa passagem em que você “trava” e não consegue acertar bem aquelas 3 notas super rápidas, esqueça essas notas e siga em frente, não perca tempo. Quando você chegar ao final do “rascunho”, aí sim dedique mais atenção a essas passagens mais difíceis. É bem provável que, depois de ter ouvido tudo com mais atenção, essas frases façam mais sentido em sua cabeça. Pode abusar do chimarrão.

Mas aí chega aquela hora em que você está de saco cheio de tirar a música e a maldita passagem não quer ser “tirada”. Aí é hora de apelar para a tecnologia. Existem muitos softwares por aí em que você pode diminuir o andamento do audio sem alterar a afinação. Recentemente, por sinal, eu experimentei o RiffMaster Pro, que é voltado para guitarristas, mas não vejo porque ele não funcionaria para todos os outros músicos. Fiquei impressionado com a qualidade do som mesmo quando diminuí extremamente o andamento. Recomendo mesmo!

Na sequência vamos falar sobre como tirar mais proveito dessas transcrições.

Boas escutas ATIVAS e até mais!

 

 

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