Melodia

Finalmente tomei coragem e gastei meu suado dinheirinho comprando o clássico brasileiro das faculdades de música: Teoria da Música, de Bohumil Med. 

Nunca fui fã. Nos anos de faculdade, sempre que abria o livro, encontrava uma definição que considerava incompleta ou equivocada. Mas, desde que me conheço por gente (há poucos anos), o Sr. Med tem sido a fonte número 1 de teoria musical dos músicos brasileiros. Na edição adquirida (5ª edição) há um selo de “Vade Mecum de Teoria Musical” na capa. Fiquei extremamente cético mas aprendi que é uma expressão sem grandes pretensões, e que representa o que o livro realmente é: 

“qualquer livro de referência de uso muito frequente e que instrui o leitor a fazer determinadas tarefas”

– Wikipedia

Tomei a expressão literalmente e “fui junto” (Vade Mecum = vamos juntos). Encontrei, já de início, aquilo que sempre me fez evitar o famoso livro: uma definição incompleta. Porém, desta vez, não é mais o olhar de um jovem universitário procurando respostas as suas perguntas que folheia as páginas do livro, mas um olhar de quem procura a reflexão. E não há nada melhor para estimular uma reflexão do que uma definição incompleta de um termo tão fundamental para a área da música inteira:

“MELODIA – conjunto de sons dispostos em ordem sucessiva (concepção horizontal da música).”

– Med, Bohumil. Teoria da Música.
*expressão em negrito destacada pelo próprio autor.

Minha intenção aqui não é detonar o livro, e muito menos o autor. Justiça seja feita, o universo editorial da música no Brasil não é nada fácil. Compilar uma série de apostilas e transformá-las num livro que iria transformar o estudo da música num país gigante como o nosso, no ano de 1980, é tarefa para poucos. Para um, na realidade.

Além disso, não me lembro de ter visto o mesmo capítulo introdutório em edições anteriores (por favor me corrijam se isso for falso). Nesta 5ª edição, Med define os conceitos de melodia, harmonia, contraponto e ritmo (características da música). Eu, se fosse escrever um livro, começaria por aí também. Normalmente, livros de teoria musical no Brasil já começam a falar sobre as definições das características do som, como fenômeno físico. Tecnicamente correto, mas isso sempre me soou cliché demais e um pouco distante dos motivos que levam alguém a ler um livro desses pela primeira vez.

Mas o que há de errado com essa definição de melodia?

Nada. A definição está correta. Uma melodia sempre será um conjunto de sons ordenados em ordem sucessiva, e ela também representa a concepção horizontal da música. O problema é que esta é uma definição incompleta, a meu ver.

Comecei a pensar em várias melodias por aí, e gostaria que você me acompanhasse nessas análises. O mais interessante desse processo é perceber como um conceito tão fundamental e simples de se reconhecer pode ser tão complicado de se definir em palavras. Cada vez mais penso que a própria definição de melodia não cabe em si mesma. Você conseguiria definir o que é melodia em poucas palavras ou frases?

Conjunto de Sons

Vamos à primeira expressão da definição de Med: “conjunto de sons”. Que tipo de sons? Para ser melodia, esses sons precisam ser de altura definida, como no piano, violão, flauta, trompete, etc.? Ou podem ter alturas indefinidas, como os instrumentos de percussão?

Ao refletir sobre isso, pensei muito num álbum do baterista Ari Hoenig: Inversations, em que toca a melodia de Anthropology (de Charlie Parker) nos tambores (!!!). Ou seja, percussão pode sim tocar melodias. Mas aqui não estamos eliminando a questão das alturas, pois os tambores podem ser afinados de maneira que possamos identificar notas musicais.

É fácil identificar a melodia de quase todos prelúdios do Cravo Bem Temperado de Johann Sebastian Bach, mas será que conseguimos definir a melodia de Apparitions, de György Ligeti? Se levarmos a definição de Med ao pé da letra, Apparitions tem tanta melodia quanto qualquer obra de Bach. 

A mim, não me parece que Apparitions tenha melodia, embora reconheço que seja possível esticar o conceito de forma a invalidar minha opinião. Afinal de contas, escute a obra 200 vezes e ela vai lhe parecer muito familiar, talvez até passível de cantoria no banheiro.

Concepção horizontal da música

Quer dizer que a existência ou não de melodia se define de acordo com a memória, e não exclusivamente com os sons? Na minha opinião, é isso o que uma concepção horizontal da música realmente significa.

Ao ouvir um som após o outro, somos obrigados a interpretar a relação entre eles. O som se repete ou é diferente? Se é diferente, muda o quê? Quais características? É nessa análise mais focada que entram em jogo os conceitos das características do som: altura, intensidade, timbre e duração. E tudo isso vai influenciar no nosso poder de identificação dos sons. 

Se considerarmos isso, então melodia é qualquer som que ocorre um após o outro? E ela é mais melodia se eu lembro mais desses sons, e menos se me esqueço deles? A definição de melodia tem um limite, mas qual é esse limite?

Disposição em ordem sucessiva

Quero insistir que minha intenção não é desqualificar o trabalho do autor do livro analisado aqui, mas apenas discutir os espaços que sua definição deixou em aberto. Por isso, vamos levar em consideração que a definição utilizada por ele não é tão vaga quanto parece e, considerando todas as reflexões feitas até aqui, não é nada fácil definir o termo melodia em poucas palavras!

O livro atinge seu propósito. A definição é clara e compreende boa parte do que consideramos ser melodia. Por ordem sucessiva, entendemos que os sons seriam seguidos um do outro em relação ao tempo. O termo “horizontal” nos parênteses prova que foi essa a intenção de Med.

De qualquer maneira, não posso deixar de pensar na outra dimensão, ou direção da música: a vertical. O pensamento vertical na música é uma espécie de recorte no tempo. O processo de análise vertical funciona como se pudéssemos empilhar todos os sons que ocorrem num determinado momento, e assim identificar uma espécie de espaço, ou dimensão em que a música ocorre mesmo omitindo o fator tempo. É nesse sentido que pensamos os acordes, como um conjunto de sons que podem ocorrer ao mesmo tempo.

Levando em consideração que cada nota (que seja diferente da outra) é necessariamente mais baixa ou mais alta (em termos de frequência sonora – nem aí nos livramos do tempo!), existe uma “sucessão”, uma ordem separada da sequência determinada pelo tempo. Por isso a definição de Med também poderia ser considerada incompleta, e neste caso até equivocada, pois existiria melodia na ordem sucessiva de sons tocados ao mesmo tempo, sem uma sucessão no tempo.

É de se refletir, mas minha opinião é que aí já estamos exagerando e esticando a própria definição de “sucessão”. A melodia é uma mensagem, um caminho, uma seta que aponta para algum lugar. Imagine uma música formada por vários sons sobrepostos, mas tocados apenas uma vez, e depois disso, silêncio. A não ser que consideremos o silêncio como parte possível da melodia, nada feito.

Silêncio

Já que tocamos no assunto… e o silêncio?

John Cage e diversos compositores de trilhas sonoras já nos demonstraram o poder expressivo do silêncio. Além disso, ele ocorre ao longo do tempo. Deixando de lado definições físicas da ausência de som (pois elas nos deixam com a conclusão de que é impossível experienciar o silêncio), vamos considerar o silêncio aqui como definição coloquial: ausência de sons altamente perceptíveis.

Esse tipo de silêncio ocorre entre sons, e normalmente é um fator muito importante para a percepção do ritmo e da sensação do tempo da melodia (aqui definida como alturas definidas). Seria justo excluir o silêncio – a pausa – da definição de melodia? Mesmo que não hajam espaços perceptíveis entre um som e outro, o silêncio certamente começa antes e termina depois de uma melodia. E essa característica é que dá à melodia a sensação de um caminho no tempo.

Como definir melodia, então?

Mesmo depois das reflexões acima, parece que saímos com mais perguntas que respostas sobre o problema enfrentado por Med e todos os outros teoristas da música:

  • A relação da melodia com as alturas sonoras definidas certamente é íntima, mas será que não existem outras possibilidades?
  • A concepção horizontal da música é sempre representada por uma melodia, mas será que não pode ser representada por outros elementos?
  • Todos os sons dispostos em ordem sucessiva formam uma melodia?
  • O silêncio é parte necessária de uma melodia ou apenas uma possibilidade?

Independentemente das respostas, a reflexão sobre este assunto é de importância fundamental para a criação e a apreciação musical. Muito provavelmente as definições estão mudando ao longo da história, sendo questionadas por compositores e ouvintes do mundo todo. E você, saberia definir a palavra “melodia”?

Music Transcription 1 – Materials and Planning

Transcribing music is probably the most important exercise one can do to understand and perform any style of music. Although this may sound obvious to many jazz musicians, it took me a long time to realize the positive effects of transcribing during my early years as a music student.

Here in Brazil, there’s a very strong DIY culture among musicians about practicing, mainly because our schools and universities couldn’t follow up with music advancements properly for a long time. So when we start to get more independent about our instruments, it’s kind of a mess. One finds a record on the Internet, the other one finds a cool book about harmony, but no one really tells you: “Oh, this is what you should be listening to/working on”. Unless, of course, you’re lucky enough to hang with the best musicians around.

In my case, learning music has always been a very slow process. Mainly because I was never focused enough when listening to music. I have listened to a lot of music, but the only things I could think about it were through an emotional level, and not technical. So I’ve spent many years studying music theory in books and practicing those scales on my instrument, but never really mixing those experiences with the music I was used to listen to.

When people around me started to talk about transcription, I’ve realized there was something really important missing in my daily practice. But still, I knew what was transcription, but I had no idea how to do it. It took me some time to make it a habit.

So if  you have the same problems as I used to, these tips about transcribing might be useful:

  1. Transcribe everything you can: melodies, chord voicings and rhythms, solos;
  2. If you’re doing your first transcriptions, choose something simple to start with. For example: gospel, dixieland, rhythm n’ blues;
  3. Prefer slow tempos. They’re easier to listen to, and you can probably find more complex and interesting things more easily than in fast tempo tunes;
  4. Show your transcriptions to the best musicians you know, they should help you figure out if there’s something wrong;
  5. Get used to preparing “lead sheets” of everything you listen to: melodies and chord symbols.
  6. All you need is your own instrument (I would recommend also any harmonic instrument, such as a piano or guitar) and your headphones or speakers.
  7. Sometimes when the recording is old and/or damaged, you might have to deal with some tuning problems. If you’re using your guitar, just tune it accordingly. Due to this problem, it may be hard to know exactly what’s the key being played. In this case, look for other recordings of the same tune. Also, if you found the key to be, for example, B major, it’s quite likely that you’re wrong, because this is a very rare key for jazz tunes. Here’s a list of the most common keys in jazz tunes:
    • Major: F, Bb, Eb, C, G, Ab, Db;
    • Minor: Fm, Dm, Cm, Gm, Am, Ebm, Bbm, Em.
  8. Try to find out how the tune begins. In approximately 80% of the tunes there’s an introduction before the melody. And the introductions are usually 4 or 8 bars long.
  9. Figure out the tune’s structure and form. Count the number of measures while the melody is being played. 32 bars AABA is a very common thing you’ll end up writing. This structure will very often be repeated throughout the solos until the recapitulation. Just watch out with interludes and codas, they usually change things a bit.
  10. Everything repeats in jazz. If you’re having trouble to figure out the chords of an A section in a AABA tune, just wait until the next A shows up and you can try to figure it out again without pausing your player. If you lost a note or two in the melody of B, just keep listening and taking notes, and soon the recap will show you everything you need.
  11. Make sure you have a proper software to slow down your audio file. It is very common to get stuck in passages where you can’t really figure out what’s being played because it’s too quick or blurry. I would definitely recommend RiffMaster Pro for that. It slows down the audio without sacrificing quality, which happens very often with these kind of softwares.

 

Now you’re ready to start transcribing for real. In the next posts I’ll talk about the process to transcribe melodies, chords and solos.

Thanks for passing by and see you next time!

 

Transcrição e Ouvido

A transcrição é o processo em que uma música é passada de uma fonte sonora para uma fonte simbólica visual. É prática comum de um músico profissional escutar uma música que ele queira tocar e escrevê-la em uma partitura.

No Brasil, e talvez no mundo inteiro, a educação musical é muito focada nos símbolos das partituras e suas definições teóricas, deixando o principal de lado: a fonte sonora. Não é a toa que é tão comum pessoas desistirem rapidamente dos cursos de música, sejam eles particulares, em escolas de músicas ou em universidades.

Eu mesmo sou um bom exemplo das causas desse tipo de ensino. Por muito tempo eu achava que estudar música significava estudar escalas, arpejos e acordes, leitura de partituras e conhecimento de todas as definições dos livros de harmonia e improvisação. Sempre que eu pensava em estudar algo, como por exemplo composição, eu procurava os melhores livros sobre o assunto e devorava-os deixando muita prática necessária para trás. Isso não significa que eu não tenha aprendido nada com os livros, mas por muito tempo deixei de lado o mais importante: estudar música!

Moral da história: toda vez que eu tocava em público, soava como uma máquina, sem emoção. Por mais que as notas fizessem sentido harmônico e rítmico, não havia uma história pra contar. Eu não causava o menor interesse nos meus ouvintes e nem para mim mesmo.

É por isso que sempre faço muita questão de falar sobre o ouvido musical. Escutar música sempre será o melhor estudo que um músico pode ter. Mas eu estou falando de escuta ATIVA, e não passiva!

A escuta ATIVA é atenciosa em que se presta atenção nos diferentes sons emitidos da fonte sonora. Atenção no ritmo, na melodia, nos acordes, nos timbres, na emoção de cada intérprete, na sua própria reação emocional. Abra seus ouvidos e nenhum som deixará de ser interessante!

A escuta passiva é aquela que todos nós fazemos durante o dia todo. Acordamos, escutamos o som do alarme, do recado do whatsapp, da água fervendo, dos carros passando, da chuva, da música da academia, do radio, e mesmo dos bares com bandas ao vivo! Você pode escutar um disco maravilhoso do Paco de Lucia, mas se durante isso ficar se distraindo no Facebook, você está perdendo uma ótima oportunidade de passar um momento muito engrandecedor com um dos maiores músicos do mundo. Eu mesmo estou escutando agora o disco “Vento Bravo”, do Nosso Trio, que é maravilhoso, mas não estou prestando nenhuma atenção, afinal de contas estou escrevendo aqui…

Então vamos concordar que a escuta ATIVA é muito mais proveitosa, certo?

Bom, mas como fazer isso? Pessoas que não entendem nada de música podem apenas escutar com atenção e chegar a conclusões como “a música é”:

  • rápida/lenta;
  • animada/triste;
  • um rock/samba;
  • ao vivo/em estúdio;
  • etc.

Conclusões bastante amplas e com definições bem subjetivas.

Nós músicos temos a vantagem de ter estudado algumas definições mais técnicas, e precisamos analisar tudo o que ouvimos para que essas definições façam mais sentido em nossa mente. Isso é que é estudar música.

Os primeiros passos para praticar a escuta ATIVA é pegar os primeiros conceitos mais amplos, como forma e estilo e defini-los a cada escuta. Eu explico este processo mais detalhadamente em alguns dos meus artigos em inglês sobre jazz, que em breve traduzirei para o português e adaptarei a música brasileira e publicarei aqui.

A partir daí a nossa percepção fica rapidamente mais aguçada. Logo sentimos necessidade de comparar diferentes formas e estilos, e vamos gradativamente prestando mais atenção aos detalhes. E é nos detalhes que se escondem as maravilhas da música.

Conforme vamos avançando no estudo da teoria, não nos resta muita opção no processo da escuta ATIVA. A transcrição vira uma ferramenta indispensável àqueles que querem se aperfeiçoar no entendimento dos sons e querem sacar o que é que há de tão especial nos seus albums favoritos.

O lado bom da transcrição é que não há idade para começar. Eu digo isso num sentido mais amplo de transcrição (é errado, eu sei, mas eu uso assim), incluindo aqui o processo de somente “tirar músicas de ouvido”, sem necessariamente escrevê-las nas partituras. Você só precisa do seu fone de ouvido e seu instrumento. Ouça a música e copie o som daquilo que você quiser “tirar” e repita até ficar bem parecido.

O lado ruim é que esse processo é lento e muitas vezes cansativo. Por isso, divida bem o seu tempo para não perder motivação. Eu normalmente escuto a música e fico apenas cantando as notas o mais exatamente possível. Isso favorece a memorização e facilita tudo mais tarde. Depois disso pego minha guitarra e vou tocar outra coisa, tomo um chimarrão, etc. Enfim, dou um descanso de aproximadamente 10 a 15 minutos para minha cabeça.

Depois disso, estipulo pequenos objetivos. Depende da dificuldade da música, mas em geral eu divido a música em sessões de 8 compassos. A cada 8 compassos completos, um intervalo para outras coisas. 10 minutos depois, mais 8 compassos, e assim por diante. Em algum momento a música inteira está “tirada” e/ou escrita e você nem percebe que foi tanto trabalho.

Se você não tem experiência com transcrição e percepção musical, pegue leve. Não vá querer tirar um solo inteiro do Chris Potter sem nunca ter tocado um jazz na vida. Tem tanta coisa simples por aí que são lições espetaculares de musicalidade. Basta procurar!

Se você já tem alguma experiência e quer tirar aquele solo longo e difícil do Joe Pass, eu recomendo tentar ser o mais produtivo possível, para não perder a motivação e acabar não tirando nada. Por exemplo, quando você chegar numa passagem em que você “trava” e não consegue acertar bem aquelas 3 notas super rápidas, esqueça essas notas e siga em frente, não perca tempo. Quando você chegar ao final do “rascunho”, aí sim dedique mais atenção a essas passagens mais difíceis. É bem provável que, depois de ter ouvido tudo com mais atenção, essas frases façam mais sentido em sua cabeça. Pode abusar do chimarrão.

Mas aí chega aquela hora em que você está de saco cheio de tirar a música e a maldita passagem não quer ser “tirada”. Aí é hora de apelar para a tecnologia. Existem muitos softwares por aí em que você pode diminuir o andamento do audio sem alterar a afinação. Recentemente, por sinal, eu experimentei o RiffMaster Pro, que é voltado para guitarristas, mas não vejo porque ele não funcionaria para todos os outros músicos. Fiquei impressionado com a qualidade do som mesmo quando diminuí extremamente o andamento. Recomendo mesmo!

Na sequência vamos falar sobre como tirar mais proveito dessas transcrições.

Boas escutas ATIVAS e até mais!

 

 

Konokol – Ciclos de 2

Um dos mais interessantes olhares sobre o ritmo musical é a arte da percussão vocal do “konokol”, desenvolvido no sul da Índia para a performance da música carnática (música religiosa). O “konokol” é o componente vocal do “solkattu”, que se refere a algumas combinações de sílabas faladas enquanto se conta a “tala” ou o tempo.

A idéia é genial de tão simples. Basicamente, os indianos deram nomes cantáveis a cada conjunto de ataques rítmicos. A prática vocal dessas sílabas é bem divertida e acaba desenvolvendo nossa consciência rítmica de forma impressionante. Além disso, como você só precisa da sua voz (pode ser sua voz mental!) e suas mãos para bater o tempo, você pode praticar a qualquer hora e qualquer lugar. No ínico, porém, se você ainda não tem prática com exercícios rítmicos, eu recomendo bastante o uso de um metrônomo para desenvolver a noção de tempo também.

Você pode começar essa prática através do estudo dos ciclos rítmicos de 2 a 5. Em geral qualquer outro número pode ser alcançado somando-se estes primeiros ciclos, por isso é fundamental se acostumar com eles antes de queimar etapas (calma aí fãs do 7!).

Vamos começar com o ciclo de 2:

Ligue o metrônomo num tempo bem lento, 50 bpm por exemplo. Mantenha uma de suas mãos com a face virada para cima (vamos chamar essa mão de “mão 1”) e, com a outra mão (a “mão 2”), bata palma no primeiro tempo. Não importa se é a esquerda ou a direita, teste e veja qual lado é mais confortável para você. No segundo tempo, apenas toque com a ponta do dedo mínimo (mão 2) na palma da mão 1. Repita o processo por aproximadamente 1 minuto para se acostumar com o movimento e o tempo do metrônomo.

Agora vamos ao que interessa. Para entender este processo, é necessário ter um conhecimento básico de teoria musical, mais precisamente sobre as definições e prática dos símbolos rítmicos: semínima, colcheia, semi-colcheia, fusa, tercina, quintina, sextina e septina.

As sílabas rítmicas para o ciclo de 2 são:

TA – KI

O desenvolvimento do ciclo ocorre da seguinte maneira: enquanto você bate o tempo nas mãos, fale em voz alta as sílabas rítmicas TA – KI, nos seguintes ritmos:

  1. TA                                                            KI                                                               (Semínimas)
  2. TA-ki                                                      TA-ki                                                        (Colcheias)
  3. TA-ki-ta                                                KI-ta-ki                                                   (Tercinas)
  4. TA-ki-ta-ki                                          TA-ki-ta-ki                                           (Semi-colcheias)
  5. TA-ki-ta-ki-ta                                    KI-ta-ki-ta-ki                                      (Quintinas)
  6. TA-ki-ta-ki-ta-ki                              TA-ki-ta-ki-ta-ki                               (Sextinas)
  7. TA-ki-ta-ki-ta-ki-ta                        KI-ta-ki-ta-ki-ta-ki                          (Septinas)
  8. TA-ki-ta-ki-ta-ki-ta-ki                  TA-ki-ta-ki-ta-ki-ta-ki                   (Fusas)

Ou assim: Konokol – Full Score

Pratique as sílabas bem devagar no inicio, aos poucos você se acostuma com os ritmos e com a pronúncia das sílabas sem enrolar a língua.

No próximo post vamos trabalhar com os ciclos de 3 e algumas novas formas de aplicar esse estudo infinito! Enquanto isso saca só essa playlist que eu achei no YouTube só com videos relacionados ao konokol:

 

Fique a vontade para tirar qualquer dúvida ou deixar um comentário. Até a próxima!

Ritmo

Dando continuidade aos estudos dos fundamentos da música, vamos analisar algumas estratégias para entender, identificar e criar ritmos mais naturalmente. Assim como os estudos de intervalos, que são a base para o estudo das alturas sonoras, o ritmo aceita conceitos muito amplos, que são estudados de diversas formas em diferentes lugares do mundo.

Rítmo vem do grego Rhythmos e designa aquilo que flui, que se move, movimento regulado.

Para se ter uma idéia da complexidade que o ritmo pode alcançar, é interessante levar em consideração que o conceito extrapola os limites do som, e mesmo do nosso planeta. Cada átomo possui elétrons que se movem em determinada frequência. E o conceito de frequência está inevitavelmente ligado a relação de um evento que acontece no tempo.

frequência é uma grandeza física que indica o número de ocorrências de um evento (ciclos, voltas, oscilações etc) em um determinado intervalo de tempo.

O ser humano interpreta a frequência de diversas maneiras, principalmente como luz e som. O som só se propaga através do ar, por isso o barulho das naves espaciais em filmes de ficção científica são uma grande ilusão, mas que se for levada a sério pode causar muito tédio aos cinéfilos.

Diante deste fato é interessante notar que alguns compositores associam o silêncio de suas obras à morte. É comum também encontrar essa associação em trilhas de filmes. Quando  o personagem falece, o som é completamente cortado, trazendo grande intensidade ao drama.

Assim como em qualquer aspecto da música, a melhor forma de se entender o ritmo é ouvindo como ele se manifesta em qualquer som ao seu alcance. Pegue a sua playlist favorita (eu ia falar o seu CD favorito, mas me senti terrivelmente velho) e identifique os ritmos presentes em cada música, e note a força que o ritmo tem para definir um estilo. Cante junto e memorize alguns dos ritmos que mais lhe agradam, sejam eles parte de uma levada de violão, bateria ou mesmo de uma melodia. Lembre-se que todos os instrumentos tocam num determinado ritmo, não apenas os percussivos.

Quando nós temos uma memória sonora dos eventos musicais, nós entendemos a música de fato, e a teoria vai servir apenas para dar nome a conceitos que você já entende na sua mente. Se você experimentar o processo inverso (o que é muito comum na educação musical tradicional), estudando os conceitos da teoria e símbolos da escrita musical antes de experimentar os sons, vai ver que a experiência será muito menos prazerosa e, consequentemente, menos efetiva.

Por isso não se preocupe tanto com a teoria das coisas, apenas experimente ficar mais atento ao que você escuta. Experimente escutar uma música sem abrir o Facebook e, melhor ainda, com os olhos fechados, foco total. Não há livro teórico do mundo que vá fazer você aprender mais do que esta experiência.

Não estou militando contra a teoria aqui. A teoria musical nada mais é do que um conjunto de conclusões que um bocado de gente teve ao analisar a música com atenção e seriedade. São referências que nos ajudam muito, mas que não substituem a experiência musical em si. Pode ser que, através da sua experiência empírica, você acabe discordando de algum conceito teórico bem aceito (o que aliás é comum na realidade acadêmica brasileira) e contribuindo para a comunidade científico-musical com novas discussões.

Nos posts seguintes irei comentar sobre alguns métodos de estudo, idéias de aplicação na apreciação e performance e claro, sugestões de estudo. Já estou preparando uma introdução ao Konokol, um método de estudo rítmico desenvolvido na Índia e aplicado por diversos músicos ocidentais. Estou planejando também algumas análises sobre os conceitos de rítmica desenvolvidos por Victor Wooten, Murray Schafer, Eduardo Gramani e Hal Galper, entre outros. O ritmo é um assunto imenso!

Até a próxima!

 

Intervalos – Parte 2

Antes de seguir em frente com outros fundamentos musicais, gostaria de sugerir mais algumas dicas de hábitos e estudos sobre intervalos melódicos. Quanto mais intimidade com este assunto, mais simples e prazeroso será o entendimento de todos os aspectos melódicos e harmônicos da música.

Vamos recomeçar a numeração aqui, mas não esqueça que já temos 6 sugestões do post anterior (Intervalos – Parte 1):

  1. Utilizando a técnica de solfejo do “Dó móvel”, cante as melodias de temas e canções. O repertório pode vir da memória e, neste caso, comece com canções simples, como “Parabéns” ou “Cai, cai, balão” e vá aumentando o grau de dificuldade gradativamente. Quando faltar música na memória, há duas coisas a se fazer:
    • Abra qualquer songbook ou livro de partituras e cante as melodias apenas lendo-as.
    • Escute mais músicas!
      • Curiosidade: existem vídeos no Youtube com gente fazendo esse exercício com músicas super-difíceis, vale a pena assistir para se impressionar e se motivar.
  2. Existem websites como o Musictheory.net que contém exercícios de ditado melódico, rítmico e harmônico. Brinque à vontade.
  3. No teclado, toque a progressão ii – V – I (em Dó maior: Dm – G7 – C) e cante qualquer nota da escala cromática. Repita o exercício até se familiarizar com o som de cada nota em relação à tonalidade. Caso tenha dificuldade em cantar algumas notas (você só irá conseguir todas se for bastante experiente), toque-as no teclado antes e repita a nota com a voz. Em seguida, faça o exercício com outra nota para esquecer da última, e tente outra vez sem o auxílio do teclado. Não tenha medo de errar, tente cantar a nota sem muito tempo para reflexão e depois verifique no teclado se você acertou. Se acertou, ótimo, continue assim. Se errou, repita o processo. Essas sonoridades se tornarão bem familiares com o tempo, não desista.
  4. Cante arpejos de todos os tipos de acorde (tríades, tétrades, inversões e tensões). Este exercício facilita a identificação de melodias em acordes diferentes ou estranhos para o seu ouvido. Esteja sempre ciente de qual intervalo está sendo cantado. Cantando uma tríade de Dó maior, por exemplo, cantamos Dó-Mi (uma terça maior) e Mi-Sol (terça menor). Na sua primeira inversão canta-se Mi-Sol (3m) e Sol-Dó (quarta justa). Na segunda inversão, canta-se Sol-Dó (4J) e novamente Dó-Mi (3M). Adicione sétimas e tensões, e continue o exercício com outros tipos de acorde.
  5. Sempre que você ligar qualquer exercício com alguma música, o exercício ganha novo sentido para o nosso cérebro e a memorização auditiva é muito mais rápida e prazerosa. No exercício nº4, por exemplo, se você escolher os acordes de um blues conhecido e trabalhar com eles,  a sua familiaridade aumentará gradativamente tanto com os tipos de acorde como com a própria música.
  6. Seja um compositor! Invente uma melodia qualquer na sua mente e identifique os intervalos.

 

Espero que vocês façam bom uso destas sugestões! Qualquer dúvida é só entrar em contato.

Abraço e até a próxima!

Intervalos – Parte 1

Sejam bem-vindos, falantes do bom e velho português!

Começo hoje uma série de posts (em português!) voltados ao desenvolvimento de algumas habilidades fundamentais para o exercício da liberdade de expressão em música, seja qual for o seu instrumento.

Hoje vou falar um pouco sobre intervalos e algumas aplicações práticas que podem lhe ajudar a absorver o conceito de forma simples e musical.

Em primeiro lugar, gostaria de esclarecer algumas realidades do estudo da música:

  1. O seu “produto” musical passa por diversos processos internos antes de se transformar em som. Em primeiro lugar, a idéia do som é criada a partir de sua memória auditiva através de esforços conscientes ou inconscientes. A sua habilidade em reconhecer as qualidades dessa informação influencia diretamente no resultado final: a sua expressão. Após reconhecer a informação sonora, é hora de aplica-la ao mundo exterior. Aí sim, e somente aí, a técnica do instrumento é fundamental. Depois que a idéia virou som, você acabou de compartilhar um pedaço de si.
  2. Entendendo esse processo, é possível listar uma série de faculdades mentais e físicas fundamentais para uma criação musical espontânea satisfatória:
    1. Memória auditiva
    2. Reconhecimento das qualidades sonoras
    3. Técnica e aplicação de conceitos teóricos
    4. Performance
  3. Cada uma das etapas acima terá mais valor artístico e, consequentemente, motivacional se você adicionar significado emocional e esforço consciente de desenvolvimento.
  4. Todos nós estamos aprendendo.

Intervalos

Intervalos musicais são a distância de frequência, ou altura, entre duas ou mais notas.

Compartilho aqui uma série de sugestões para desenvolver a sua percepção e identificar os intervalos musicais com mais facilidade em todas as etapas da criação musical:

  1. Estudo dos métodos tradicionais de solfejo e percepção auditiva.
  2. Uso de softwares para auxílio do estudo de percepção, como EarTrainer.
  3. Escutar muita música. E se esforçar para reconhecer intervalos melódicos e harmônicos, seja qual for o estilo ou instrumento. Seja um apreciador ativo, e aplique o conhecimento até a identificação se tornar um hábito natural.
  4. Pratique cada intervalo em todas as tonalidades e escalas possíveis, cantando e em algum instrumento melódico, explorando digitações e técnicas diferentes.
    1. Para instrumentos de corda, aplique os intervalos tanto horizontalmente (na mesma corda) quanto verticalmente, dentro do shape de escala e misturando-os.
  5. Meu grande mestre Larry Roy me apresentou o método de estudo dos intervalos através de quatro processos (Processos – Full Score), este método (assim como qualquer outro) só é realmente válido se for aplicado com o máximo de concentração. Não se deixe enganar pelos atalhos da técnica instrumental e saiba SEMPRE identificar notas e intervalos na sua mente antes de passar para a próxima etapa:
    1. Ascendente – Ascendente
    2. Descendente – Descendente
    3. Ascendente – Descendente
    4. Descendente – Ascendente
  6. A cada música ou tema estudados, concentre-se em memorizar os intervalos entre cada nota da melodia. Aplique esse exercício a solos e partes instrumentais também.

Neste longo estudo estamos basicamente treinando muito mais o nosso ouvido do que nossa técnica instrumental. Porém é claro que, com o tempo, ao se habituar com os exercícios no seu instrumento, você terá muito mais facilidade técnica de acessar os intervalos que você quiser. De qualquer forma, procure aplicar estas sugestões no seu dia-a-dia de estudo e você perceberá um enorme avanço em todas as áreas da sua vivência musical, desde uma simples apreciação mais consciente até a aplicação dos seus conhecimentos no seu instrumento.

Espero que estas dicas lhe sejam úteis e bons estudos!

Music and Language Jam

In the last 3 years, I’ve have lived in 4 different countries, and have been making a huge effort to understand their culture and adapt to them the best way possible. This would include intense language learning, getting to meet as many people as one can, visiting libraries, bookstores, museums, bars and art expositions. All these situations helped me to learn so much about the world and, curiously, about myself.

At some point in 2013, I remember enjoying so much reading a book written by Victor Wooten, the great bass player, because it made me feel great about music again. At that point in my life, I was living in considerable pressure (mostly created by myself…) with university, professional concurrence and the need to prove something to others and myself. It was a huge investment to be in a Canadian university, so I’d better get some work done! So the book helped me to relax and free up my spirit to experience the joy of music again. So I was ready to learn for real, not to prove anything to anyone.

When that became my new reality, learning was transformed into a completely different experience. Every album that I would listen would suddenly have so much more to focus on. Every book I would read would suddenly have plenty of details in each and every paragraph. Every new place I would visit would overwhelm me with their magical sights, sounds, and even smells. And, ultimately, every person would become endlessly more interesting and complex to my appreciation.

Suddenly learning languages became an unavoidable instinct as strong as learning music to me. So I dived in French, Italian and German, and have been investing some real time with them. During this process I have been remembering a very insightful part in Wooten’s book (http://www.themusiclesson.com) that I’ll paraphrase here:

  • Learning music is like learning a language. Not only a new language, but your own mother language. Try to imagine your first years of life. As a baby, you could not understand or say a word. You certainly had no idea what grammar was, or even a word, a letter! And now you’re a great master of your language! Maybe not a respected author or speaker, but you certainly make yourself easily understandable and make use of this language to express pretty much everything you can imagine. The way you are connected to this language is really amazing. We usually don’t give this fact much credit because pretty much every human being has that learning experience with its mother tongue. But that doesn’t erase the fact that you’ve been through an incredible learning process and became a master of your own language. It became your own!

Wooten continues with the metaphor (paraphrased again):

  • And how did you manage to do it? Was it studying grammar? Was it researching every word and their meanings? Although this has certainly helped you to get even better, when you were doing that, you were already fluent! So what was it? Jamming is the answer. You may have not realized, but right after you were born, you were widely exposed to daily jams with many of the great masters of your language: your parents and other members of family. You didn’t know what to say, and mostly you had no idea what they were saying. But you were there, communicating, all the time.

Needless do say that Wooten recommends you to go jam with the masters to learn music! I agree with his argument. It’s been true throughout my music career and it’s been true during my new attempts in learning new languages. I love my German conversation groups, even though I can’t express almost anything, I do understand things in a broader perspective every single day we meet.

It can’t be more true about music. For me, music is all about relationships. Improvisation is all about relationships. Of course I’m not saying you should stop practicing and just go jamming (and Wooten doesn’t either!), but this process should be seen as the music experience itself. Your own assumptions on music will either harmonize or conflict with others’, and that’s exactly when you will have to make real musical choices, express yourself no matter how much you know. And, in the future, music might become your mother tongue.

Kind of Blue – Chorus’ Structure

Most part of jazz choruses have a very defined and simple structure, and usually fit in one of the following categories:

  1. 8-bar chorus: quite rare, the shortest you can find, usually just a short form of blues. Examples
  2. 12-bar chorus: basically the blues, very current harmonic structure. Miles Davis’ “Solar” is one of the rare examples of a 12-bar chorus that is not a blues!
  3. 16-bar chorus: relatively frequent. In the beginnings of jazz, most tunes had a 16-bar chorus: ragtimes (Maple Leaf Rag) or spirituals (Swing Low, Sweet Chariot). One can decompose them according to their melodies in two 8-bar phrases as well as in four 4-bar phrases. One can find tunes with additional 2 bars, such as “Baby Won’t You Please Come Home”. Rather than assuming there is a 18-bar chorus category, it is quite more often to understand these cases as 16-bar structures with 2 bars added in the end. Here are some examples of 16-bar tunes.
  4. 32-bar chorus: the most current structure, generalized during the 20’s. The chorus is decomposed in four very clear 8-bar phrases, and one can recognize some different forms:
    1.  32-bar AABA: the most frequent form, in which the 1st, 2nd and 4th phrases are identical and are called “A”. Only the 3rd phrase is different and is called “B” or “Bridge”. Examples.
    2. 32-bar ABA’C: also very frequent, in which there’s no Bridge. The 2nd phrase is different from the 1st, and the 3rd starts like the 1st but ends differently to present a new different 4th phrase, called “C”. Examples.
    3. 32-bar ABAB’ examples.
    4. 32-bar ABCD: not very common due to the amount of new material it demands for every 8 bars, especially for those composers so used to the AABA form. In this form, each phrase is different from the previous ones. Examples.
  5. 64-bar chorus: decomposed in four 16-bar phrases. Its commons forms are exactly like those from 32-bar chorus, but twice longer. Cole Porter composed many tunes with 64-bar chorus structure. Here are some examples.

Analysis: Kind of Blue (1959) – Miles Davis

The best-selling jazz record of all time is – naturally – a classic. Kind of Blue is usually the first choice if you would like to listen to a jazz album, and we’re not exceptions to that!

Miles Davis’ sextet is an all-star band that deserves a lot of focused listening:

This time, we’re gonna try to figure out the structure of each tune’s chorus. Of course, you can use your knowledge from my previous posts to analyze the tunes! Check out the links, turn on your stereo and let’s listen! You’ll get the answers just below the documentary, an extra for you to enjoy Miles Davis’ masterpiece in detail.

Spoiler:

  1. So What (Miles Davis): 32-bar AABA
  2. Freddie Freeloader (Miles Davis): 12-bar Blues
  3. Blue in Green (Miles Davis / Bill Evans): 10-bar (a unique one!)
  4. All Blues (Miles Davis): 24-bar Blues (basically a 12-bar doubled!)
  5. Flamenco Sketches (Miles Davis / Bill Evans): 24-bar modal tune (we’ll talk about it the upcoming posts!)

Hope you’ve enjoyed, this album is one my favourites and certainly THE FAVOURITE ONE for many! Feel free to ask questions, make some comments or give some suggestions! Hope to see you all next week!

A Journey to Interstellar Space

Here’s a great post from Good Music Speaks blog about John Coltrane!
If you don’t know Coltrane, I would recommend to listen his previous work with Miles Davis and other albums cited in the article before digging into “Interstellar Space”. But it’s up to you! It will be a great journey no matter how much music you’ve listened to!

Enjoy!